• Karoline Rodrigues

O nobre ofício da doma

Atualizado: Jul 30

Domar cavalos é um trabalho nobre, quase que uma arte, e que merece todo reconhecimento dada sua importância na vida de um cavalo que vai iniciar seu treinamento. Qualquer pessoa pode aprender a domar, mas poucos têm o dom.


Cada domador tem um método. Seja pelo dom ou pelo esforço do aprendizado, cada método tem seus méritos, finalidades e objetivos. Cada treinador, por sua vez, gosta que seus cavalos sejam iniciados de certa maneira. Cada um tem uma filosofia de trabalho e um programa de treinamento.


Eu já tentei muitas vezes domar potros, e nunca completo o processo. Acho que eu até tenha aprendido a domar pelo tanto de vezes que tentei, mas ainda tenho medo. E não tenho o dom, definitivamente.


Da forma como eu enxergo, e isso é só teoria da minha cabeça com base no que eu aprendi, a doma tem 3 fases: 1) o trabalho de chão, com e sem sela; 2) com sela, quebrar o potro e amansar, e 3) levar para fora ou para a pista, e ter controle dele. Entendo que tudo além disso já diz respeito a treinamento.


Um parênteses para dizer que nesse caso estamos falando de cavalos de performance, de genética apurada, características aperfeiçoadas, que já tiveram 2 anos de manejo. Não de cavalos semi-selvagens, de índole duvidosa e comportamento repulsivo. Trabalho de chão, na minha humilde opinião, com os animais que trabalhamos hoje em dia, é introdutório. Uma apresentação de sela e cavaleiro ao cavalo, futuros parceiros, melhores amigos inseparáveis. Não uma punição, castigo ou sofrimento, para o que eles ainda sequer fizeram de errado. Estão aprendendo. E são incrivelmente receptivos a tudo que são solicitados a fazer.


Feita essa ressalva, eu afirmo que eu acredito na praticidade da doma. Tá, você que está lendo pode até pensar quem sou eu pra falar de doma? Compreensível. Mas nunca disse que eu era boa nisso. O que não me impede de ter opinião sobre o assunto. Uma opinião formada com base no que eu vi meu pai fazendo ao longo dos anos (só eu tenho 33, sim, 33! Ele tem mais uns tantos anos de cavalo), no que ele ensinou outras pessoas a fazer, no que ele pede para quem doma para ele fazer, no que ele me ensinou e eu tentei fazer, no que vi outras pessoas fazendo.


O trabalho de chão é importante para introduzir o processo, sem dúvida. Mas ele tem que ter um propósito dentro do treinamento, que convenhamos, é feito montado, obviamente. Quebrar o potro para mim significa fazê-lo entender os comandos de controle básicos, respeitar o que lhe é pedido por quem está em cima dele. E depois disso, fazer o mesmo na pista, para que então venha a ser iniciado o processo de treinamento propriamente dito. Sem violência e sem exaustão, que também é uma forma de violência, embora quem a pratique não admita.


E falando de doma, eu queria mesmo era falar do Marco. O Marco é um daqueles que têm dom. Dá gosto de ver ele mexer num potro. Ele sente cada movimento, sem medo. Conversa com o potro. E não importa o quanto o animal resista ou se assuste, ele consegue fazer o potro entender o que ele quer. Ele mexendo um potro do chão mais parece uma dança. Uma dança linda de admirar, de ver progredir, de ver finalizar numa relação de confiança e entrega absoluta.


O Marco é conhecido na região pelo apelido “Amarelo”. Ele treina cavalos para o pessoal da região, e corre provas de laço comprido. Reconhecido como um grande cavaleiro. Há anos ele doma pra gente, e confiamos absolutamente nesse trabalho que ele faz com maestria.

Dia 1 de doma dos Potros 2022

Ele mexeu em 6 potros nossos de 2 anos, 5 vezes no total, não consecutivas. Um dia numa semana só trabalhou do chão, dessensibilizou. Um dia na semana seguinte (porque choveu) colocou sela no redondel. E mais dois dias montou na pista de boi, de dois em dois.


Eu que sou a medrosa, monto em qualquer cavalo que ele mexeu, porque confio no que ele faz. Hoje eu montei nos potros que ele iniciou. Selei nas baias com ajuda do Marcelo, rodei, quebrei do chão, montei, trotei, guiei e galopei. Só fiz isso porque ele não pode vir mexer nos potros, e vou falar disso em outro post.


Hoje, quero mandar um salve para quem tem o dom, como o Marco, e também para quem aprendeu a fazer isso bem, um trabalho tão essencial e nobre, que é a base de todo esse universo dos cavalos de performance que tanto amamos.

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