• Karoline Rodrigues

Quando exigem “Melhorias na ANCR” mas não conhecem a ANCR

Atualizado: Mai 6

Recentemente foi criado um grupo de discussão sobre melhorias que poderiam vir a ser implementadas na ANCR, a Associação Nacional do Cavalo de Rédeas. Minha primeira reação: PÂNICO. Tenho um certo pavor de polêmicas e discussões. Resquícios do meu tempo de presidência do NCCR.


A lista de exigências dos participantes é longa, mas o que mais assusta é a falta de informação e conhecimento dos insatisfeitos. Crítica bem fundamentada vem de críticos bem informados. Parece que não era o caso quando o grupo começou. Existe uma grande diferença entre exigir melhorias, entender as causas do que supostamente precisa de melhorias, e contribuir para que realmente ocorram melhorias.


Fato é que em grupo de mensagens instantâneas e em rodinhas de amigos todo mundo é muito valente, e fala muita besteira. Eu mesma já ouvi de tudo, que é importante ensinar as crianças a pegarem duro nos cavalos, que o presidente da associação ficou rico durante o mandato, que a filiação à NRHA não agrega em nada. E na hora da assembleia geral da ANCR, cadê todo mundo? Cri-cri, cri-cri….


Com frequência me abstenho de dar opinião porque muitas pessoas tem uma habilidade incrível de interpretar como ofensa, chegaram a dizer que estou “satisfeita” com a situação, que “não vejo com desconfiança a atuação da diretoria”, já fui até convidada a me retirar do grupo por não ter nada a acrescentar. Afinal, hoje vivemos num mundo onde parece ser mais importante ser politicamente correto do que expor sua opinião. Parece que só é certo se pronunciar se for pra concordar. O pior é que eu tenho uma forte tendência a ser politicamente correta, não tenho paciência, e me falta compostura para lidar com ignorância. Pior, para lidar com quem não quer ouvir a experiência de quem já está nessa peleja há muito tempo. Não falo apenas por mim que faço rédeas há 23 anos, mas também pelo que aprendi com um homem que sustentou família, criou filha e sobrevive até hoje dos cavalos e da modalidade, e que é associado desde a fundação da associação.


Dessa vez não aguentei. Me senti na obrigação de me manifestar. Ressaltei muitas vezes (porque no começo nitidamente não entenderam) que o que eu exponho não é a defesa das coisas como estão, mas sim primeiramente o relato de fatos que justificam certas decisões e orientam a atuação da diretoria, regras, políticas. E sigo acreditando na minha missão de INFORMAR. Informação é crucial para fundamentar críticas, e propor soluções. Prometi para mim mesma não deixar fazerem críticas por esporte, por mais que o processo “educativo” seja desgastante pra mim.


A minha avaliação nessa quase uma semana de existência do grupo é que contribuí. Muitas pessoas também contribuíram. Com mais informação as pessoas refletem, repensam, perguntam. É nítido que o nível da conversa mudou. É só uma pena que ninguém tenha feito a “lição de casa” de pesquisar, se informar, conversar, antes de atirar pedras. Ainda é uma pena que algumas exigências tenham motivação tão egoístas enquanto a modalidade e a associação têm tantos outros macro problemas que poderiam vir a ser minimizados com a mobilização dos associados.


Elaboraram uma pauta. Não concordo com alguns itens, mas paciência. É a democracia, vamos colocar em discussão, sem problemas. Mas alguns assuntos abordados me chamaram mais atenção, alguns comentários me fizeram o sangue ferver. E sobre esses comentários queria falar um pouco mais o que eu penso, aquele primeiro pensamento que veio na minha cabeça, mas que na hora não me pareceu nada politicamente correto digitar e enviar. Sobre outros pontos eu consigo me conter e aguardar a tal da reunião que acontecerá para discutir a pauta.


O Potro do Futuro Amador na sexta à noite. Para começar tomo a liberdade de transcrever aqui uma fala da minha amiga Joana Azevedo que resume sabiamente - e educadamente - minha opinião: “A questão do profissional proibir o amador de montar, além de não serem todos, acho que é muito mais uma questão de comunicação e objetivo, do proprietário. Eu inicialmente, não fui a favor do potro do futuro amador vir para sexta. Mas depois, percebi que é muito mais emocionante, tem mais público e a gente se sente tão valorizado quanto a final do aberto no sábado! No domingo, antigamente, não tinha ninguém assistindo e quando tinha estava todo mundo de ressaca!”


Eu me lembro do meu primeiro PF, em 2000. Domingo. Fazenda São Jerônimo, Americana/SP. Eu acho que eu consigo me lembrar de cada pessoa que estava na beira da cerca aquele dia assistindo as provas. Eram 33 conjuntos. Cada um com seu treinador, alguns treinadores tinham mais de um amador, alguns competidores tinham mais de um cavalo. Ou seja, não tinha 50 pessoas. Fora isso, algumas pessoas tinham algum familiar assistindo. No meu caso, tinha minha mãe e meu tio Toshiba.


E assim foram todos os PF de que participei, por anos. Treinar sábado à noite depois da final da aberta. Acordar cedo no domingo pra fazer prova. Aquele eco na pista com só a voz do treinador e do parente te dando apoio. Se você tiver sorte vai ter uns 3 parentes assistindo, e o assistente do treinador é daqueles que gritam. Eu resumo essa saga do amador no domingo como deprimente e desestimulante.


Dizem contra o PF na sexta: “Ah mas se o cavalo é bom e tem chance de ir bem no aberto? Ah mas e se o treinador não deixa treinar? Ah mas vai estragar o cavalo pro aberta que vai correr no sábado.” Pode parecer petulante, mas a resposta é simples: a vida é feita de ESCOLHAS. A rédeas é feita de escolhas. Se o cavalo não aguenta correr as 4 passadas (2 classificatórias e final de aberta mais o amador), alguém tem que abrir mão. Se o cavalo aguenta mas o treinador não deixa montar, estabeleçam prioridades. Um corre uma prova, outro corre outra. Se você tiver condições, vai investir em ter um cavalo para o aberta e um para o amador.



Sinto muito, mas é uma escolha cruel, que eu juro que fica mais fácil ao longo do tempo quando planejada entre proprietário amador e treinador. É o que eu venho fazendo com meu treinador ao longo do tempo. E não é porque ele é meu pai, nem ousem cogitar fazer esse tipo de julgamento. É assim que o meu treinador trata a questão com os clientes dele. A prioridade é sempre do amador. Se tem chance de ir bem na aberta e tem condições de correr as duas categorias, ok. Se não dá ou o amador não quer (ou porque vai ficar caro, ou porque o cavalo não dá condição), o amador escolhe. Se vai estragar, o treinador está lá pra consertar, e o amador tem que ter consciência das circunstâncias do seu cavalo, desde que ele seja bem informado pelo seu treinador, e este esteja de boa-fé.


Pensem bem se não é óbvio que um treinador adoraria ter apresentado a Chicsdreamofdiamonds no Futurity, mas o proprietário tinha um plano para que ele apresentasse ela. “Ah, mas lá é diferente.” Não, desculpa. Nesse ponto não é.


Lembro que logo que o RNV foi criado esse assunto veio à tona. Todo mundo reclamava das provas no domingo. Bom, eu sou da época do PF no domingo e tive o privilégio de participar do PF na sexta à noite em 2017. As vantagens são inegáveis. O público é maior, o prestígio de ser assistido, o quanto deixa o show mais bonito e agrega para os patrocinadores, a paz de chegar no sábado e poder curtir todas as provas. Fosse o PF no domingo, a festa de encerramento teria sido para meia dúzia de pessoas. Todos os treinadores estariam preparando cavalos de amador, e todos os amadores estariam treinando ou dormindo para poder acordar cedo para fazer prova. E o resto já teria ido embora. Lá estaria você com seus parentes, o treinador e o assistente.


Novamente, a festa de encerramento teve um público maior, deixou o show mais bonito e agrega para os patrocinadores, promove integração entre os associados. Foi maravilhoso. Foi um movimento ousado, mas os benefícios para a modalidade são inegáveis. Foi o passo atrás visando passos à frente no futuro. Se houve uma queda no número de inscrições, é mais por conta da situação econômica do país. Mas quem sabe no futuro tenhamos mais cavalos em treinamento, o aberta com o seu e o amador com o seu, e todos os cavalos com uma longevidade de competição maior, mais inscrições, custo menor. Bom pra TODOS.


“Ah mas quem estuda e trabalha não pode ir.” Me faz pensar também na minha época de escola e faculdade, do tempo que trabalhava no escritório em São Paulo, que não podia ir no snafle bit do super stakes na sexta, que não podia ver meu pai fazer prova na sexta, porque tinha aula, porque era só uma funcionária. Paciência. Eu podia correr o PF amador no domingo. Ainda acho que o PF na sexta é melhor. Eu teria me virado pra ir, programado com antecedência se isso fosse prioridade, ou não ido. Me faz pensar também no presidente da ANCR, que não é milionário, que tem emprego igual todo mundo, e se desdobra em mil, abre mão da sua vida pessoal e do tempo com a família, e divide as férias do trabalho entre as semanas das provas pra poder gerir a associação e ajudar a modalidade que ele tanto ama. Enfim, escolhas…


A importância dos Núcleos. Participo do NCCR desde a sua criação, já fui presidente, ajudo no que eu posso hoje em dia. Atualmente, minha situação financeira implora por eleição de prioridades e cortes. Eu não sou rica e faço meus sacrifícios pelo que é importante pra mim. Infelizmente, eu gosto de rédeas. Felizmente meu pai é treinador. Infelizmente não posso bancar todos os meus cavalos na ANCR, felizmente posso participar com um ou dois, e também posso participar do núcleo que tem inscrição mais em conta, premiação decente. Se eu praticasse qualquer outro esporte, competiria nos circuitos que tem anuidades e inscrições em torneios condizentes com meu orçamento, municipal, regional, estadual, nacional, mundial.


Repito, não estou dizendo que não pode ficar mais barato. Seria ideal que ficasse, mas eu também sei os custos que a ANCR tem hoje para se manter, então não critico. Se eu tivesse uma ideia brilhante de como fazer isso, tenho certeza que a diretoria adoraria ouvir. Dizer que tudo é caro é sinônimo de viver no Brasil. Repito, rédeas não é uma conspiração elitista, e não é barato em lugar nenhum do mundo.


Patrocínio. Eu me lembro de uma conversa com um criador importante, patrocinador cota ouro da ANCR. Estávamos discutindo estratégias de marketing, e perguntei sobre os patrocinadores dele. Ele respondeu que não tinha mais patrocínio de ninguém, porque ele canalizou os patrocínio que ele tinha para a ANCR. Ele acredita que ele receber o patrocínio é um benefício imediato, enquanto que fomentando a associação ele terá benefícios a longo prazo, através da comercialização dos produtos da sua criação. Sim, choverão comentários maldosos como “Ah, mas ele é rico, não precisa de patrocínio mesmo”. E assim volto no ponto que também foi levantado nas discussões pela Joana Azevedo: a importância do patrocínio, e junto com isso, a mobilização que todos os associados poderiam fazer nesse sentido. Enquanto se matam pela discussão de amador poder ser patrocinado (o que eu também concordo, faz sentido eles poderem), se cada um olhasse pro lado e tentasse captar um patrocinador para a ANCR, seria muito mais vantajoso pro esporte. Assim como fez o criador que eu mencionei no início. Como você contribui para sua associação?


Estrutura dos eventos para acomodar a família. Me faz pensar também na minha infância. Comecei a ir para as provas com meu pai aos 5 anos. Dormíamos no caminhão, tomava banho em banheiros que qualquer mãe de hoje condenaria, isso quando tomava banho. Se chovia molhava todas as cobertas, e se esquentava cozinhávamos. E era muito bom. Confesso que me irrita muito quando reclamam do banheiro como se fosse a prioridade nacional. Adoro banheiro branquinho limpinho e cheiroso, por isso que quando uso o banheiro público do parque de exposições não faço xixi fora do vaso nem jogo papel no chão, ao contrário da maioria. Indo um pouco além, banheiro limpo é importante, e entretenimento pra crianças menos importante. Os associados deveriam se organizar para promover atividades nesse sentido, mas não vejo razoabilidade de colocar (mais) essa responsabilidade na lista de prioridades da diretoria. Impossível ir em prova de cavalo e não ver cocô de cavalo. Para quem não quer amassar barro em dia de chuva, sugiro um passeio no shopping, onde também tem o Parque da Mônica para a alegria da criançada.


Tenho alguns outros pontos de vista sobre esses assuntos, mas já os coloquei no grupo.


Prometo ser mais breve nos próximos textos. Muito sangue ferveu essa semana por conta desse grupo, e quero crer que será pelo bem da modalidade, e para meu crescimento pessoal.


Saudações.

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