• Karoline Rodrigues

Quarentena de treinador no Brasil

Atualizado: Mai 6

Não se fala em outra coisa. Quarentena, isolamento, distanciamento, grupos de risco, “fica em casa”. Mas o que mudou de fato na vida dos treinadores de cavalos (e suas famílias)? Quais são as preocupações reais desses profissionais? Quais os riscos para a atividade? Estamos na segunda semana de caos midiático (e de saúde e de política e de economia) decorrente do coronavírus, e são muitas as idas e vindas de decisões com reflexos imediatos em todos os setores da sociedade.

Na prática, a atividade do dia-a-dia dos treinadores não muda quase nada. Trabalham ao ar livre, em ambientes rurais, com poucas pessoas. A verdade é que ser treinador é quase que sinônimo de isolamento social.



Residência e trabalho. Quem mora no mesmo lugar onde o centro de treinamento opera, como é o nosso caso, está ainda menos sujeito à exposição. Para nós, “ficar em casa” significa trabalhar igual, como todos os dias. Para quem precisa se deslocar diariamente, alguns cuidados a mais são necessários, como deixar os sapatos e a roupa usada para fora e ir direto para o banho, e higienizar as mãos ao sair do carro. Mas fora isso, segue a vida.


Provas canceladas. Muitos eventos foram canceladas, mas convenhamos - com todo respeito às associações de raça e modalidades - nenhum treinador no Brasil sobrevive de premiação de provas. Claro que ajudam, mas em geral ninguém conta com isso para pagar as contas básicas do mês. Quem sente mais os impactos do cancelamento das provas no Brasil são fornecedores, colaboradores, juízes (que bem ou mal recebem, e muitos praticamente vivem dessa renda), lojistas, leiloeiras.


Treinadores que moram no exterior ressaltaram, pelo menos do que li de entrevistas, o cancelamento das provas como o reflexo mais impactante da pandemia na sua rotina. Entendo que eles conseguem fazer dinheiro com as provas lá, por isso a relevância. Falaram bastante também sobre ficar em casa, e poder se dedicarem nos cavalos que são potros desse ano com mais calma, passar mais tempo com a família. Tudo isso também é verdade para os brasileiros.


Amadores. Treinadores de cavalo são, na sua essência, prestadores de serviço. Têm a obrigação de atender clientes, proprietários e amadores que treinam. Nesse sentido, as restrições afetaram o movimento dos centros de treinamento. Talvez até mais por uma preocupação desses próprios grupos, que em sua maioria residem em grandes centros urbanos onde o risco de contágio (e consequentemente de consciência, responsabilidade e puro medo) é naturalmente maior. O que é bom para quem tem alguém do grupo de risco em casa, seja pela idade ou pelo histórico de saúde.


Prestadores de serviço. Por conta do fechamento do comércio do local, ficou inviável dar andamento às obras, pela restrição do acesso pessoal, e porque o comércio local está fechado, como lojas de materiais de construção. Visitas veterinárias também acabam acontecendo apenas em casos de urgência, também pela restrição da circulação de pessoas. Mesmo porque, esses profissionais costumam circular em muitos lugares, e estar em contato com pessoas de inúmeras outras diversas localidades.

Preocupações. Hoje está mais claro que aos poucos as atividades comerciais vão se normalizar, e todo mundo aos poucos vai voltar a produzir. A roda vai girar e a cadeia produtiva não vai deixar ninguém na mão. Mas em algum momento, sim, chegamos a pensar no pior. Se a economia pára, como as pessoas vão pagar as contas? A fatura do cartão com o mercado da sexta-feira pré-isolamento, combustível, os remédios pra dor de barriga da semana passada, a “bíblia” do carro que já nem é novo mais e aquela geladeira nova parcelada em 10 vezes.

Obviamente que quem é dono de cavalo e paga boleto do cavalo que comprou ou paga treinamento, tem suas reservas, não é afetado imediatamente. Mais do que isso, nunca vai querer deixar o treinador na mão. Mas a longo prazo, todos sofreriam muito. A longo prazo, a preocupação seria real. Não por má-fé de não pagar o treinador, mas por lógica. Primeiro, por questão de razoabilidade e segurança, as coisas supérfluas são as primeiras a serem cortadas. Mercado ou inscrição de prova? Aluguel ou hotel e passagem do Super Stakes? Mensalidade escolar ou um potrinho no leilão da associação? Seguro do carro ou nominação atrasada? Segundo, e esse argumento é meio repetitivo, porque de um jeito ou de outro todos acabariam sendo afetados, e isso é fato.

E nesse pior cenário que chegamos a vislumbrar, entra o pavor de quem apesar de trabalhar muito duro, pela natureza do ofício, não têm gordura para segurar as pontas nesse momento. Treinadores são, em sua maioria, autônomos, sem plano de saúde, sem previdência privada, muuuito menos poupança. Treinador não pode ter um dinheirinho na mão que compra um potrinho pra ganhar dinheiro lá na frente, compra um freio que estava precisando, ou, geralmente, paga conta atrasada. Poucos têm carteira assinada ou contrato fixo e outros benefícios.

Boletos de ração, folha de pagamento de funcionário, notinhas da farmácia veterinária, insumos agrícolas, e todas as outras tantas despesas relacionadas, por mais que não sejam exclusivamente nossas (pois são reembolsadas pelos clientes) são a maior preocupação de um treinador autônomo. Assim como é a preocupação de um dono fábrica ou de um restaurante, guardadas as devidas proporções. Não é algo exclusivo de treinadores, mas é a única razão que acho que causaria impacto efetivo na rotina de centros de treinamento.

Esperança. O sentimento do momento é de esperança. De que vamos encontrar um meio-termo para as coisas voltarem ao normal, na medida do possível, sem arriscar os grupos mais vulneráveis, sem ninguém ter que parar a vida nem passar aperto, sem arriscar a vida com o vírus, nem a saúde mental com as preocupações das contas para pagar.

Enquanto isso, as atividades de treinamento seguirão normais, e nos veremos em breve nas provas e nos ranchos.

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